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  • Foto do escritorCadu Lemos

#17/Explorando a Não Dualidade no Contexto Organizacional




Imagine que você está acorrentado em uma caverna, forçado a olhar para uma parede onde sombras são projetadas por objetos que passam entre você e uma fogueira. Esta é a famosa alegoria da caverna de Platão, onde os prisioneiros acreditam que as sombras constituem a totalidade da realidade, pois nunca viram o mundo exterior. Um dia, um prisioneiro se liberta, sai da caverna e, inicialmente ofuscado pela luz do sol, descobre um mundo vibrante e complexo além das sombras. Ele percebe que sua realidade anterior era uma ilusão.


Agora, vamos transportar essa metáfora para o contexto moderno. Coloque um par de óculos de realidade virtual (VR) e você será instantaneamente imerso em um mundo digital vívido e fidedigno, onde suas percepções são manipuladas por algoritmos avançados. Neste ambiente, você pode interagir com personagens e cenários que, embora pareçam reais, são apenas códigos e pixels. Ao retirar os óculos, você é trazido de volta à verdadeira realidade, percebendo que o mundo virtual era apenas uma ilusão convincente.


Essa metáfora da realidade limitada, em suas duas versões, ilustra como nossa percepção da realidade pode ser restrita e enganosa. Ela nos leva a explorar conceitos mais profundos, como a consciência desperta e a não dualidade, que muitas tradições filosóficas e espirituais defendem. Hoje, esses conceitos estão se tornando cada vez mais relevantes em nossa vida pessoal e profissional, especialmente para líderes em organizações.


Parte 1: A Consciência Desperta e a Não Dualidade

A consciência desperta é um estado de percepção em que transcendemos as limitações do ego e dos pensamentos condicionados. Neste estado, estamos totalmente presentes, experimentando uma clareza e paz interior profundas. A percepção de que o "eu" separado é uma ilusão nos permite reconhecer a verdadeira natureza da nossa existência.


Características da Consciência Desperta:


  • Presença Plena: Estar totalmente presente no momento, sem ser dominado pelo passado ou preocupado com o futuro.

  • Ausência de Ego: A percepção de que o "eu" separado, com todas suas histórias e identificações, é uma construção mental, não a verdadeira essência.

  • Clareza e Compreensão: Um entendimento claro e intuitivo da natureza da realidade, além dos conceitos e dualidades. É um processo instintivo, não mental, intelectualizado.

  • Paz Interior: Uma sensação profunda de paz e contentamento que não depende de circunstâncias externas.


A não dualidade nos ensina que todas as divisões e separações são ilusórias. Tudo no universo é interconectado, manifestando-se a partir da mesma consciência subjacente. A sensação de ser um indivíduo separado é um construto mental. Através da auto investigação, questionamos a natureza do eu pessoal, descobrindo que somos a própria consciência que observa todas as experiências.


Princípios da Não Dualidade:


  • Unidade Fundamental: Tudo no universo é interconectado e uma manifestação da mesma realidade subjacente.

  • Ilusão da Separação: A sensação de ser um indivíduo separado é uma ilusão e não reflete a verdadeira natureza das coisas.

  • Interdependência: Todos os fenômenos surgem em interdependência; nada existe isoladamente.

  • Transcendência do Dualismo: A realidade última transcende as dualidades de sujeito/objeto, bem/mal, interno/externo.


Metáforas para Compreender a Consciência e a Não Dualidade:


  • Tela de Cinema: A consciência é como a tela de um cinema. Os filmes (experiências, pensamentos, emoções) são projetados na tela, mas a tela em si permanece inalterada.

  • Oceano e Ondas: O oceano representa a consciência universal, e as ondas representam as manifestações individuais. Assim como as ondas são parte do oceano, cada ser individual é uma manifestação da mesma consciência.

  • Espelho: A consciência é como um espelho que reflete todas as imagens sem se alterar. As experiências são como reflexos no espelho: elas aparecem e desaparecem, mas o espelho (a consciência) permanece imutável e intacto.


A auto investigação é uma prática de inquirir profundamente na natureza do "eu" para descobrir sua verdadeira essência. Esta prática envolve perguntas introspectivas como "Quem sou eu?" ou "Quem é que está ciente?", “Quem percebe?”.

Talvez as perguntas “O que sou eu?”, ou “O que percebe?”, ou ainda “O que está ciente da experiência?” sejam ainda mais reveladoras.



O que permanece ciente quando minha mente não está tentando resolver nada? Quando não há pensamento? Quando sinto o espaço entre um pensamento e outro?




Processo de Auto Investigação:


  • Questionamento do Ego: Começamos questionando a natureza do eu pessoal, reconhecendo que o ego é uma construção baseada em memórias, identidades e crenças.

  • Desidentificação: Ao perceber que o eu-ego/mente é impermanente e mutável, começamos a desidentificar-nos com ele, entendendo que não somos esses pensamentos e sentimentos transitórios.

  • Reconhecimento da Consciência: Descobrimos que a nossa verdadeira natureza é a consciência que observa todas as experiências. Esta consciência é impessoal, sem forma e imutável.

  • Integração: Gradualmente, esta percepção de que somos a consciência implícita a todas as experiências se torna mais estável, e começamos a viver a partir deste entendimento.



Parte 2: Benefícios da Abordagem Não Dual nas Organizações


Reconhecer a consciência como fundamental e integrar a perspectiva da não dualidade nas organizações pode transformar significativamente a cultura empresarial. Ao transcender a visão tradicional de separação e competição, líderes e equipes podem criar um ambiente mais colaborativo, harmonioso e inovador. Aqui estão alguns benefícios dessa abordagem:


Melhoria no Bem-Estar e Saúde Mental


Quando líderes e colaboradores entendem que não são apenas seus papéis ou títulos, mas partes de uma consciência universal, isso pode reduzir o estresse e a ansiedade. A prática de presença plena e auto investigação promove um senso de paz interior e bem-estar que se reflete no ambiente de trabalho.


Fortalecimento de Relacionamentos e Colaboração


A percepção de interconexão promove uma cultura de empatia e cooperação. Em vez de ver os colegas como competidores, os colaboradores passam a vê-los como parceiros em uma jornada comum. Isso fortalece os relacionamentos e melhora a colaboração, resultando em equipes mais coesas e produtivas.


Inovação e Criatividade


A abordagem não dual encoraja a abertura mental e a flexibilidade. Quando não estamos limitados pelo ego e pelas crenças fixas e limitadoras, somos mais criativos e inovadores. Essa mentalidade aberta é essencial para a resolução de problemas e para a inovação contínua em um mercado em rápida mudança.


Liderança Autêntica e Inspiradora


Líderes que adotam a perspectiva da não dualidade tendem a ser mais autênticos e inspiradores. Eles lideram pelo exemplo, demonstrando integridade, compaixão e um profundo senso de propósito. Propósito este que não precisa ser buscado, ele já entende que o traz internamente, como parte de seus recursos a serem compartilhados. Isso cria uma cultura organizacional onde os colaboradores se sentem valorizados e motivados a contribuir com o melhor de si.


Aqui, divido a definição de liderança que melhor reflete a não dualidade, da autora Katrijn Van Oudheusden:


“Não existem líderes.

Existe apenas liderança.

A liderança não está em uma pessoa ou é de uma pessoa, é uma atividade.

Não é o indivíduo que é um líder.

A liderança não pertence a ele. 

Ele não cria a liderança.

Líderes são organismos pelos quais a liderança flui.

Se pudéssemos começar a ver as coisas dessa forma,

teríamos uma liderança sem egoísmo”.



Cultura Organizacional Fluida e Adaptável


Uma cultura baseada na não dualidade é naturalmente mais fluida e adaptável, como o estado de flow. Em vez de se apegar rigidamente a estruturas e processos, a organização se torna mais ágil e responsiva às mudanças. Isso é crucial em um ambiente de negócios dinâmico e imprevisível.


Parte 3: Implementação Prática da Abordagem Não Dual


Integrar a não dualidade na cultura organizacional não é uma tarefa trivial, mas os benefícios podem ser profundos. Aqui estão algumas práticas e estratégias para ajudar nessa transformação:


Programas de Desenvolvimento Pessoal


Ofereça programas de desenvolvimento pessoal que incluam a auto investigação e o questionamento do ego. Esses programas podem ajudar os colaboradores a entender sua verdadeira natureza e a viver com mais autenticidade e propósito.


Comunicação Aberta e Empática


Promova uma cultura de comunicação aberta e empática. Encoraje os líderes a ouvir ativamente e a se comunicar com compaixão e compreensão. Isso ajuda a construir confiança e a resolver conflitos de maneira construtiva.


Valorização da Interconexão


Crie oportunidades para que os colaboradores experimentem a interconexão em suas tarefas diárias. Atividades de espírito de equipe projetos colaborativos e momentos de reflexão conjunta podem reforçar a percepção de unidade e colaboração.


Liderança Consciente


Treine os líderes para serem exemplos de liderança consciente. Isso inclui desenvolver habilidades de autoconhecimento, empatia e uma visão ampla que transcende os interesses pessoais ou departamentais.


Conclusão: Uma nova ideia de liderança se faz urgente


Através da exploração da consciência desperta e da não dualidade, começamos a ver além das ilusões de separação. Integrar esses princípios nas organizações pode transformar a cultura empresarial, promovendo bem-estar, colaboração, inovação e uma liderança autêntica. Ao viver a partir desta percepção, podemos criar ambientes de trabalho onde os resultados e lucros são consequências naturais de uma nova forma de trabalhar, mais fluida e verdadeira.


Incentivo você a explorar essas ideias e práticas em sua própria organização. A jornada para a compreensão da consciência universal é tanto pessoal quanto coletiva, e os insights obtidos podem trazer uma transformação profunda e duradoura.


Se você quer conhecer mais sobre o tema, acesse meu canal no YouTube para a série "Flow & Não Dualidade" ou marque uma conversa comigo.

Que o flow esteja com você.




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"Psiconauta" é uma palavra baseada em raízes gregas que se traduzem em “explorador da mente”. É uma mistura de "psico'', um prefixo usado para descrever processos mentais ou práticas como psicologia e termos como argonauta e astronauta, cujas “viagens e explorações dos mares e do espaço” evocam uma transcendência elevada ou espiritual. A ideia é mensalmente provocar, refletir e agir sobre temas da mente e espírito.

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