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  • Foto do escritorCadu Lemos

O Mito de Sedna e o Haiti, um texto de Alba Querino para refletir.


Estes dias reli o mito de Sedna, um mito Inuit, forte, profundo, e no seu impacto, muito belo. Sedna era uma garota esquimó que ao se casar com o príncipe dos pássaros, infeliz, resolve voltar para sua terra, com seu pai. Nesse retorno, fica claro para o pai o pedido da Mãe Natureza do sacrifício de Sedna em troca da vida de todos os outros da aldeia. O pai, então, para acalmar a fúria das tormentas, sacrifica a filha, empurrando-a da embarcação e cortando-lhe os dedos, os braços, por fim, a mergulhando em direção ao fundo do mar. O mar ártico que antes era vazio, sem vida marinha, apenas mar, através da morte de Sedna, se transforma em um imenso oceano abundante, cheio de alimento, de flora e fauna, capaz de nutrir o povo inuit. A fartura chega através do sacrifício de Sedna que se torna o alimento abundante e mantenedor da vida no norte.

Ao imaginar as cenas da submersão de Sedna, da sua tristeza e horror, antes de se ver renascida; ao imaginar o destino, a dádiva que a sua vida-morte significou para todos os outros, me lembrei do povo haitiano. Diante da fúria da natureza, do seu trovejar de poder e intempestividade. Diante do seu devir, reorganizando o caos, transformando as formas e indiferente à arrogância estúpida da humanidade que em vão tenta sobrepujar essa força criadora, mantenedora e destruidora. O sacrifício no Haiti é a submersão de um país que pode provocar a transformação dos povos em sentimento de solidariedade, amizade e cuidado. O Haiti velho, sofrido, maltratado pelas relações de poder, pela tirania dos de dentro e dos além da fronteira, se dissolve e renasce em função do sacrifício de uns tantos em um ressurgimento que pode ser (veja bem!) pode ser mais digno, mais igualitário, mais de acordo com a sua humanidade. Bem como nós somos. O Haiti é a oportunidade de que todos os povos juntos vejam a dimensão de realidade entre a vida e a morte. O cheiro da morte que a todos ceifa sem distinção, entra em nossos narizes sem pedir licença. As imagens da morte e seus gemidos nos assombram e nos fazem mais vivos, acordados diante de tudo que há. Ela é a possibilidade de se perceber a grandiosidade da vida que espera quinze, dezesseis dias para respirar de volta dos escombros, das sombras da humanidade. Nessa potencialidade do novo, diante do nosso cotidiano disfarçado, os grupamentos voluntários, podem nesse momento compreender a sua igualdade, o seu tamanho diante da vida, da morte, da necessidade do outro, das suas próprias necessidades. Nessa grande reunião solidária de cura, as feridas não tem nacionalidades, os medicamentos não possuem bandeiras, o dinheiro é único, a dor não precisa tradução. O amor é sem fronteiras… E tal movimento internacional não pode se resumir a esse primeiro momento de urgência. É preciso que se mantenha firme a ajuda enquanto necessário for, até que as instituições haitianas estejam sólidas o suficiente para que seu povo possa se autogovernar, que possua sua autonomia. Os povos amigos não podem se esquecer do Haiti no apagar dos holofotes da mídia. Há que se enterrar todos os mortos, velar todos eles. As mortes institucionais, sociais e psiquicas também…há que se velar tudo, para que a ceifa seja completa e o renascimento possa brotar num terreno fértil de possibilidades, então. Os ‘generosos’ países não devem esquecer-se de que a sua função é humanitária, e não militar. É civil e não política. É progressiva e não retrógrada, colonizadora. É criadora de História e não estórias de abusos num território devastado. Há que se ser humilde até na ajuda, até na oferta do cuidado. Não avaros, mas abundantes; não arrogantes, mas humildes em observar em quê somos necessários. O que podemos dar e o que nos é pedido. O Haiti já assentiu na humildade de receber até mesmo dos seus inimigos anteriores. Há que se desfazer das suas roupas imperialistas, agora. Não por mero jogo político, não por evento midiático para fortalecer a sua imagem de superiores e governantes do planeta, mas reverenciando a força da natureza que nos traz de forma crua a nossa dimensão mediana e o nosso lugar. Como Sedna, o Haiti é a grande possibilidade da abundância, do alimento da verdadeira civilidade, da alegria solidária, do renascimento oceânico da vida em todas as suas almas irmãs. Que o mito de Sedna possa ser uma leitura simbólica na ruptura do sacrifício haitiano. Alba Querino

Comento:

Penso que uma das mais importantes, talvez a mais importante função de uma corporação ao gerar lucro (dito como seu principal objetivo) é fazer com que isso transforme positivamente a vida das pessoas.  Acredito que a ruptura de um ciclo vicioso, repetitivo e condenado do comando e controle em busca do lucro seja iminente. Consciencia na gestão de empresas. Geração Y, espera-se isso de vocês. Com a contribuição da experiência e ‘janela’ dos que vieram antes.

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