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  • Foto do escritorCadu Lemos

#11/A pílula vermelha

Atualizado: 28 de dez. de 2023

Edição especial de O PSICONAUTA



No universo simbólico do cinema, o filme Matrix apresenta uma metáfora profunda sobre o despertar para a verdadeira natureza da consciência. O conceito de tomar a pílula vermelha no filme pode ser comparado a embarcar em uma jornada em direção à compreensão da natureza não dual da realidade e à percepção da pura e ilimitada consciência.


Nesta analogia, exploraremos como esse despertar se assemelha à escolha de tomar a pílula vermelha e mergulhar nas profundezas da consciência, oferecendo uma visão da realidade da consciência desperta.


Em Matrix, a pílula vermelha significa uma escolha entre abraçar uma ilusão confortável ou enfrentar uma verdade desafiadora e desconfortável. Neo, o protagonista, é oferecido a essa escolha por Morpheus, uma figura que simboliza a sabedoria e a iluminação.


Da mesma forma, no âmbito do despertar para a verdadeira natureza da consciência, as pessoas se deparam com uma escolha. Podem optar por permanecer enredadas pelas ilusões da mente egoica ou tomar a pílula vermelha, representando a vontade de explorar as profundezas de sua própria consciência e a natureza fundamental da realidade.


Imagine a mente como uma vasta matriz, um construto de crenças, percepções e padrões de pensamento condicionados que ditam como percebemos a nós mesmos e o mundo ao nosso redor. A pílula azul, simbolizando a escolha de permanecer na ignorância, permite que alguém fique dentro dos limites dessa matriz, sem consciência de suas limitações. No entanto, a pílula vermelha representa o abandono dessa perspectiva limitada, nos provocando a questionar as ilusões e buscar uma compreensão mais profunda da realidade.


No que diz respeito ao despertar do piloto automático, a maioria das pessoas vivem suas vidas dentro dos limites de sua identidade egoica, ou o ego, simplesmente.

Essa identidade é construída por meio do condicionamento a que somos submetidos desde que nascemos, das influências sociais e das experiências pessoais, criando uma matriz de crenças e percepções que definem quem pensamos ser. O processo de despertar começa quando alguém se torna insatisfeito com essa perspectiva limitada e escolhe explorar além de seus limites.


Tomar a pílula vermelha no contexto da consciência significa escolher investigar a natureza do eu e da realidade. Essa investigação envolve mergulhar nas profundezas de sua própria consciência para desvendar as ilusões e construções que ocultam a verdade. É um passo corajoso em direção à compreensão da essência fundamental do nosso ser, além do ego e de suas narrativas fabricadas.


Assim como Neo experimenta uma mudança completa de referências e paradigmas ao tomar a pílula vermelha, as pessoas que embarcam no caminho do despertar passam por uma transformação profunda. Essa transformação envolve uma mudança na percepção, uma realização de que o ego e suas estratégias não são a realidade última. A jornada revela que nossa verdadeira natureza está além das limitações do ego - uma consciência expandida e ilimitada que está interconectada com toda a existência.


No filme, Morpheus guia Neo por essa transformação, ajudando-o a navegar pelos desafios do despertar para a realidade da matrix. De maneira semelhante, os mestres espirituais e guias auxiliam aqueles no caminho do despertar. Esses guias oferecem ensinamentos, práticas e insights para auxiliar no processo de auto investigação e realização.


Para vislumbrar essa realidade de consciência desperta, é necessário se envolver em práticas que facilitem a dissolução da identidade egoica e proporcionem um sabor direto da consciência não dual.


A meditação, por exemplo, é uma ferramenta poderosa para aquietar a mente e permitir que as pessoas acessem um estado de pura consciência além dos pensamentos e conceitos. Mas atenção, a meditação neste caso não busca fixar a atenção em algum ponto como um mantra, a respiração ou a chama de uma vela. Ela não tem o objetivo de buscar a iluminação ou nos transformar em melhores seres humanos.


Durante esse tipo de meditação, os praticantes são encorajados a observar seus pensamentos sem apego ou julgamento, buscando o espaço vazio entre eles. Imagine os pensamentos como nuvens brancas (ou escuras, de tempestades, como acontece em pensamentos negativos). Estas passam. O firmamento segue impassível.

Essa prática cultiva a compreensão de que os pensamentos e o ego não são o núcleo do nosso ser.


Em vez disso, há uma consciência que transcende as flutuações da mente - uma presença observadora que permanece inalterada em meio à paisagem mental em constante mudança.


Da mesma forma, momentos de profunda compreensão ou conexão com a natureza podem proporcionar vislumbres dessa realidade desperta. Nesses momentos, a mente pode se aquietar momentaneamente, e um sentimento de unidade e interconexão torna-se palpável.


Esses vislumbres servem como lembretes de que a consciência desperta não está distante e inatingível; é um aspecto intrínseco do nosso ser, obscurecido apenas pelos véus da mente egoica.


A prática da auto investigação é também um caminho em direção à consciência desperta que envolve uma análise profunda e questionamento de nossa própria natureza e identidade. Nesse processo, buscamos transcender as identificações limitadas com o ego e as ilusões da mente, explorando quem ou o que somos além das aparências superficiais. Ao direcionar a atenção internamente e examinar nossos pensamentos, sentimentos e percepções, gradualmente começamos a discernir a consciência implícita e atemporal que é a base de nossa existência.


À medida que alguém continua a mergulhar nas profundezas da consciência por meio da prática consistente e da introspecção, os vislumbres da consciência desperta se transformam em uma realização sustentada. Essa realização engloba uma mudança na identidade, da auto imagem egoica para a consciência expansiva e não dual onde está contida toda a criação.



Lawrence Fishburne, (Morpheus) em The Matrix (1999)


Em conclusão, a analogia entre tomar a pílula vermelha do filme e despertar para a verdadeira natureza da consciência é uma metáfora poderosa que enfatiza a escolha de ir além das ilusões do ego e da separação e explorar as profundezas do nosso próprio ser.


Assim como a jornada de Neo o leva a questionar a realidade apresentada a ele, a jornada do despertar nos convida a questionar nossa realidade percebida e descobrir a verdade eterna de nossa verdadeira natureza - a consciência desperta.


Por meio de práticas e experiências que oferecem vislumbres dessa realidade, podemos navegar no processo de despertar, abraçando, em última instância, a verdade que nos liberta das limitações do ego e nos conduz ao reino ilimitado da consciência não dual, desperta e plena.

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