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Flow e aprendizagem autodirigida


Artigo escrito com Alexandre Santille - teya ecossistema 

Aprender nunca esteve tão ao alcance de cada um de nós.

A tecnologia e a Internet, trouxeram um ambiente especialmente propício para que possamos escolher o quê, quando e com que frequência podemos buscar aprendizagem dos temas que nos interessam ou são necessários para o melhor desenvolvimento profissional e pessoal. E o melhor, existe muito conteúdo disponível de forma gratuita.

Porém, aproveitar tudo isso, depende de uma escolha pessoal firme e com propósito claro, em meio a um mundo de tantos estímulos e interrupções externas de forma acelerada e contínua.

Conversando recentemente com Alexandre Santille, rememorei meus tempos de jardim de infância, onde tive a oportunidade de aprender sob as orientações do método Montessori.

O Método Montessori é o resultado de pesquisas científicas e empíricas desenvolvidas pela médica e pedagoga Maria Montessori. É caracterizado por uma ênfase na autonomia, liberdade com limites e respeito pelo desenvolvimento natural das habilidades físicas, sociais e psicológicas da criança.

O método Montessori se baseia em uma visão da criança como um ser humano que é naturalmente ansioso pelo conhecimento e capaz de iniciar a aprendizagem em um ambiente apoiador e cuidadosamente preparado.

Algumas vezes por semana, tínhamos acesso ao ‘material’ .

Eram de longe, os dias mais esperados por mim (que desde então já nutria uma resistência natural pela matemática).

Ali, eu podia de alguma forma, compreender alguns conceitos abstratos de algo tão cartesiano.

Carrego esta memória até hoje e há alguns anos, com alegria, descobri alguns estudos que apontam o método Montessori como uma das maiores referências da compreensão do estado de Flow.



Características do material Montessori:

Manipulativos: as crianças aprendem através de suas mãos.

Sensoriais: aprendem através dos sentidos e da experimentação.

Lúdicos: se divertem enquanto aprendem.

Repetitivos: aprendem à base de repetição constante..

Motor de aprendizagem: fundamental no método Montessori.

Relendo a literatura do tema, confirmo o quanto as características acima são também características intimamente ligadas ao estado de consciência elevado que o Professor Mihaly Csikszentmihalyi chamou de Flow. Um estado onde aprendemos e desempenhamos nossas atividades em nossa melhor capacidade. Ao reviver essas experiências, resolvemos colocar algumas ideias sobre aprendizagem autodirigida neste texto.

Para entendermos como o estado de Flow pode ser um grande aliado na aceleração da aprendizagem, trouxemos alguns estudos sobre o tema, começando dos fundamentos.

O que é FLOW

O estado de Flow é relacionado a experiências otimizadas e máxima concentração, onde as pessoas agem no máximo de sua capacidade. Pode levar a altos índices de desempenho, criatividade e prazer, além de abranger uma variedade de áreas numa enorme quantidade de atividades humanas que compartilham das mesmas características do Flow.

Quanto mais tempo é passado neste estado, mais qualidade de vida. Pessoas que vivem a experiência do Flow relatam grandes níveis de concentração, criatividade e emoções positivas - o que, além de mero prazer, traz inúmeros benefícios interdependentes. Como exemplo, sabemos que emoções positivas reconfiguram atitudes mentais: a pesquisa aponta que os aspectos positivos alongam o escopo da atenção, ampliam o alcance deste comportamento, aceleram a criatividade e aumentam a intuição.

As caracteristicas do FLOW

Este estado de consciência tem as seguintes características:

(1) Equilíbrio entre desafio apresentado e habilidades próprias

(2) Objetivos e metas exequíveis e claras

(3) Feedback imediato

(4) Motivação intrínseca - autotélica, ou seja a atividade gera prazer em si mesma

(5) Hiperfoco

(6) Perda temporária de referência egóica, diminuição de julgamento - crítica interior

(7) Distorção da percepção do tempo

(8) Sensação de controle e,

(9) Ação e consciência emergem.


Autoeficácia e FLOW

O psicólogo Albert Bandura definiu autoeficácia como a crença de um indivíduo em ser bem sucedido em situações específicas ou cumprir determinadas tarefas. O senso de autoeficácia pode representar um papel importante na maneira do indivíduo lidar com metas, tarefas e desafios.

A teoria da autoeficácia é a base da teoria de cognição social de Bandura, que enfatiza o papel de aprendizagem observativa e experiências sociais no desenvolvimento da personalidade.

O principal conceito da teoria de cognição social é que as ações e reações de um indivíduo, incluindo comportamento social e processos cognitivos, são, na maioria das vezes, influenciadas por ações que o indivíduo observou em outras pessoas.

Por ser desenvolvida a partir de experiências externas e autopercepção, e ser uma das razões que determina o resultado de muitos eventos, a autoeficácia é um elemento importante da teoria social cognitiva.

De acordo com a teoria de Bandura, pessoas com alta autoeficácia - ou seja, aqueles que acreditam que podem obter bom desempenho - são mais propensos a olhar para as tarefas difíceis e grandes desafios como algo a ser dominado ao invés de evitado.

Confiança e segurança/autonomia na autoeficácia, são considerados fatores de grande importância que aceleram o Flow da motivação intrínseca porque o aprendiz sente um senso de controle sobre as escolhas que pode vir a fazer para seu aprendizado.


O Flow é a união da ação e consciência que, somado aos nossos outros sentidos, constroem o pré e o pós da experiência de engajamento e aprendizagem.

Estudos confirmam a noção de que a crença pessoal na habilidade como aprendiz/estudante é um fator determinante para o Flow, e que aprendizes com maior nível de autoeficácia são mais bem sucedidos em completar tarefas, além de apresentarem ótimos resultados.

Autoeficácia não apenas leva à experiência do Flow, como também, de forma indireta, à combinação de desafios e habilidades.



Como esperado, estas descobertas fornecem apoio empírico e confirmam a tese de que a vivência do Flow coletivo não é apenas a combinação entre desafio e habilidade, mas também a crença e confiança em sua própria habilidade como maneira de ultrapassar os obstáculos e desafios da tarefa que se tem em mãos agora e no futuro.

Aprendizagem autodirigida e FLOW

Em seu sentido mais amplo, a aprendizagem autodirigida descreve um processo no qual os indivíduos tomam a iniciativa, com ou sem a ajuda de outras pessoas, para diagnosticar suas necessidades de aprendizagem, formular metas de aprendizagem, identificar recursos humanos e materiais para a aprendizagem, escolher e implementar a aprendizagem apropriada.

Muito já é conhecido sobre o aprendizado autodirigido:

(a) os alunos podem se capacitar para assumir cada vez mais responsabilidade por várias decisões associadas ao esforço de aprendizado;

(b) a autodireção é melhor vista como um continuum ou característica que existe até certo ponto em todas as pessoas e situações de aprendizado;

(c) a autodireção não significa necessariamente que todo aprendizado ocorrerá isoladamente dos outros;

(d) os alunos autodirigidos parecem capazes de transferir a aprendizagem, tanto em termos de conhecimento quanto de habilidade de estudo, de uma situação para outra;

(e) o estudo autodirigido pode envolver várias atividades e recursos, como leitura autoguiada, participação em grupos de estudo, estágios, conversas e atividades de escrita reflexiva;

(f) são possíveis papéis efetivos para os professores na aprendizagem autodirigida, como diálogo com os alunos, garantia de recursos, avaliação de resultados e promoção do pensamento crítico;

(g) algumas instituições de ensino estão encontrando maneiras de apoiar o estudo autodirigido por meio de programas de aprendizado aberto, opções de estudo individualizadas, ofertas de cursos não tradicionais e outros programas inovadores.

O aprendizado autodirigido enfatiza as escolhas no caminho de aprendizado; de fato, a motivação intrínseca é essencial para a aprendizagem autodirigida. Na aprendizagem autodirigida, os alunos precisam ser capacitados para tomar suas próprias decisões de aprendizagem.


Evidentemente, a aprendizagem informal oferece muito mais opções para o desenvolvimento.


A literatura sugere que existe uma relação positiva entre Flow e desempenho, especialmente em contextos de aprendizagem, criatividade artística e científica.

Engeser e Rheinberg descobriram que o Flow previa o desempenho acadêmico em dois de seus três estudos (aprendendo em um curso obrigatório de estatística e aprendendo em uma aula voluntária de francês) e, ainda segundo eles, há pelo menos duas boas razões pelas quais o Flow deve estar relacionado ao desempenho. Primeiro, o Flow é um fenômeno de alto funcionamento que, por si só, deve incentivar um bom desempenho. Além disso, os indivíduos que experimentam Flow sentem mais motivação "para realizar outras atividades e, a fim de experimentar o Flow novamente, eles se propõem tarefas mais desafiadoras".

Em suas palavras, “a experiência do Flow atua como um ímã para o aprendizado - isto é, para o desenvolvimento de novos níveis de desafios e habilidades. Em uma situação ideal, uma pessoa estaria constantemente crescendo enquanto desfrutava do que fazia. ”

Conclusão

Devemos imaginar as experiências de aprendizagem de tal forma que os aprendizes acessem o estado de Flow.

Atualmente, aquele sistema padrão com vários assuntos e programação fixa, inibe o Flow. Além disso, o participante não tem voz na elaboração de seu próprio currículo e de sua jornada de aprendizagem.

Precisamos redesenhar a educação para que possamos fornecer projetos desafiadores para facilitar o acesso a esse estado ampliado de consciência.

As salas de aula precisam ser mais como espaços “maker”, salas de foco e criatividade, espaços que proporcionem aos alunos autonomia para escolher seus próprios projetos e, em seguida, trabalhar neles.

Todo projeto deve envolver o aprendizado de habilidades multifuncionais, e deve ser concebido de forma que o aluno tenha total controle.

Por fim, o papel do professor deve ser o de um guia. Só então os alunos ativarão o estado de Flow.

Que o Flow esteja com você.

Referências

Knowles (1975). Self-directed learning

Downes, (2010). Learning Networks and Connective Knowledge

Loyens, Magda, & Rikers (2008). Self-Directed Learning in Problem-Based Learning and its Relationships with Self-Regulated Learning

Schüler & Brunner (2009). The rewarding effect of flow experience on performance in a marathon race

Engeser, S., & Rheinberg, F. (2008). Flow, performance and moderators of challenge-skill balance. Motivation and Emotion

Bakker, A. B., Oerlemans, W., Demerouti, E., Slot, B. B., & Ali, D. K. (2011). Flow and performance: A study among talented Dutch soccer players.

Engeser, S., Rheinberg, F., Vollmeyer, R., & Bischoff, J. (2005). Motivation, Flow-Erleben und Lernleistung in universitären Lernsettings

Schiefele & Rheinberg, (1997). Motivation and knowledge acquisition: Searching for mediating processes

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