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  • Cadu Lemos

Como lidar com a mudança?



As mudanças, eternas companheiras do ser humano, vêm nos atingindo em ritmo cada vez mais acelerado. Muitas vezes nos abatemos diante disso, achando que não temos recursos suficientes para acompanhar o turbilhão dos tempos.


A boa notícia é que dispomos, sim, de recursos, freqüentemente insuspeitados ou até mesmo ignorados, e podemos nos tornar capazes de acioná-los. A maior prova disso, é o momento de turbulência que estamos vivendo, nesta travessia para um mundo pós Covid 19 e como muitas iniciativas criativas, humanitárias e envolvendo tecnologia, estão surgindo a cada dia.


Nosso comportamento, positivo ou não, nasce da representação interna que fazemos do mundo e de nós mesmos. Aquilo que pensamos determina os resultados que obtemos. Somente quando sintonizamos nosso estado interno com aquilo que desejamos é que

obtemos os resultados esperados.



Empecilhos à mudança interna


“Nada é mais forte que um hábito.” A afirmação é do poeta romano Ovídio e está em Ars amatoria (A arte de amar), manual escrito provavelmente no primeiro ano da Era Cristã. Dois milênios depois, ao ver a dificuldade que indivíduos e empresas — que são, obviamente, formadas por indivíduos — têm para mudar seus hábitos, mesmo quando a realidade assim o exige, somos obrigados a reconhecer a atualidade da frase.


Falamos neste texto da necessidade de mudar o ponto de vista, a representação que fazemos do mundo e de nós mesmos — enfim, a atitude mental ou o tão repetitivo 'mindset'.

E o que é a atitude mental senão um hábito, o hábito de pensar de determinada maneira?


Nossos hábitos, ou padrões, de pensamento são formados ao longo de toda a nossa vida, desde que nascemos, a partir dos estímulos e experiências que recebemos do meio ambiente, especialmente por intermédio da interação social com nossos pais, parentes, professores, amigos etc.


É como se nossa mente fosse um disco rígido, um HD, no qual o ambiente fosse jogando informações, até dado momento em que deixamos de receber passivamente aqueles ‘inputs’ e questionamos tudo. Esse momento é o que chamamos de maturidade.


Libertar-se de certos padrões de pensamento, porém, não é nada simples. Um deles diz respeito ao que os psicólogos chamam de teoria da atribuição. Segundo essa teoria, o ser humano sempre tenta explicar as atitudes alheias, atribuindo-lhes causas. E, conforme as causas que atribui a cada atitude do outro, o ser humano age de determinada maneira.


Um exemplo prático: no dia marcado para a reunião entre um executivo e o conselho diretor, no qual esse executivo apresentará um importante projeto, o diretor-presidente da empresa acorda com uma tremenda dor de cabeça. Está às voltas com uma série de problemas pessoais e teve uma noite péssima. Com a cabeça pulsando de dor, o diretor passa a reunião toda de cara amarrada.


Sem saber de nada disso, o executivo vê a cara do superior e ‘atribui’ ao semblante fechado a seguinte causa: “Esse sujeito não gosta de mim. Por mais que eu me esforce, ele sempre vai me achar um incompetente, um zero à esquerda”.


Resultado: além de se dispersar durante a apresentação, nos dias seguintes o executivo fica se mortificando por seus supostos erros e, com a auto-estima em baixa, acaba tendo a performance realmente diminuída. Em suma, as causas atribuídas a uma atitude alheia terminaram por influenciar (nesse caso negativamente) o comportamento e viraram verdade....



Olhando para dentro


Para superar tais hábitos nocivos, que impedem nossa mudança interna, só há uma ferramenta: o autoconhecimento. Precisamos, numa auto-análise sincera, examinar como fazemos nossas avaliações, entrar em contato com nossos sentimentos, identificar nossas intenções, descobrir o que está por trás de cada uma de nossas ações.

Na maior parte do tempo, vivemos no piloto automático: estamos pensando ou no que aconteceu ontem, ou no que vai acontecer amanhã. Raras vezes estamos no presente, atentos de fato a nossas atitudes e sentimentos.

“O futuro é uma possibilidade, o passado é uma memória, o único momento de real poder está no agora.”
Provérbio havaiano

Quando falamos em se conhecer e entender as próprias emoções, vem à mente um conceito que veio para ficar: o de inteligência emocional, criado por Daniel Goleman. E o que vem a ser inteligência emocional? Resumidamente, é a capacidade de compreender as emoções, próprias ou alheias, e lidar com elas. Para Goleman, a inteligência emocional compõe-se de cinco elementos:

  • autoconsciência;

  • capacidade de lidar com as emoções;

  • capacidade de motivar-se;

  • empatia; e

  • aptidão social.

Quando compreendo minha realidade mental (tenho autoconsciência) e consigo alterá-la positivamente (sou capaz de lidar com minhas emoções), posso alterar também minha realidade física, como vimos no exercício de ampliação do campo de visão. Daí a importância desses dois primeiros níveis da inteligência emocional na vida profissional, em que temos de a todo momento nos adaptar, nos alterar, nos reinventar.


Os dois últimos níveis da inteligência emocional, a empatia e a aptidão social, são a chave para o espírito de equipe. Empatia é a habilidade de compreender o outro, colocando-se no lugar dele; enquanto aptidão social, segundo Goleman, é a capacidade de lidar com as emoções do grupo.


Qual o grande empecilho enfrentado hoje por todos e cada um de nós, diante do que estamos atravessando?
A resposta é simples: medo.



O medo é o maior inimigo da comunicação, da performance, da adaptação à mudança . É ele que paralisa nossa ação, que distorce nosso julgamento.


E a ação sufocante do medo não se restringe à vida profissional: muitos conflitos humanos foram e continuam sendo gerados pelo medo. Por medo de sofrer as conseqüências de uma desigualdade que ela mesma criou e o descaso governamental aprofundou, a sociedade civil se arma e acaba gerando mais violência. Por medo de serem contestados, líderes políticos se tornam tiranos. Por medo do potencial militar e econômico alheio, países invadem uns aos outros, gerando guerras inacabáveis. O medo está na raiz da própria beligerância humana.


No mundo corporativo, para vencer o medo é preciso insistir num processo de auto-observação para a liderança. Quando falo em liderança, refiro-me à liderança de sua própria vida. Independentemente de você ser líder ou liderado na empresa, o importante é que tome as rédeas da sua própria vida e responda por seus atos, livrando-se do medo e da covardia.


Se despirmos o conceito de liderança de todos os modelos acadêmicos e de todas as teorias, chegaremos a uma definição singela: liderança é inspiração. E inspiração é o oxigênio da alma. O espírito humano nasceu para inspirar e ser inspirado.


Liderança, então, é uma relação em que o servir inspira o crescimento das pessoas e faz do mundo um lugar melhor para viver. É algo que alguém vivencia, não que diz para o outro fazer. O melhor sermão é o vivido, não o pregado. Infelizmente, porém, ainda vemos na maioria das empresas uma enorme distância entre intenção e gesto.


A nova liderança, que chamo de 'liderança integral', aquela que devagarinho vem se firmando com toda a força, é aquela em que o líder serve o grupo, e não o contrário. Mas por que é tão difícil aceitar, com humildade, nosso papel de servidor? Porque é natural do ser humano buscar a aprovação do grupo, e muitas vezes ele inconscientemente acredita que, para isso, precisará se impor, tornando-se arrogante e autoritário.


Muitos de nós vivem com medo. Medo de perder o emprego, parecer tolo, falhar, ficar pobre, sofrer violência. Essas pessoas estão jogando para não perder. Isso é viver com medo.


A alternativa é viver pensando nos amigos, na família, nas realizações, nos momentos alegres, nas boas risadas, na natureza, na beleza que se encontra no trabalho. Quem vive assim joga para ganhar. Isso é viver com amor.


As empresas que estão construindo seu futuro com os olhos no passado, nas tradições tribais, estão percebendo essa verdade. Mas, como temos dito, o processo de mudança não é nada fácil e talvez nem seja viável para todos. Requer uma liderança inspirada e inspiradora.


Quero deixar clara a diferença entre motivação e inspiração. Motivar, esse verbo tão freqüente no ‘corporativês’, é prover motivo, induzir, incitar, impelir. Inspirar, por outro lado, é afetar, guiar, despertar por influência divina, preencher com emoção, animar, dar vida ('anima' é o sopro de Deus). Acreditar no poder inspirador do ser humano é acreditar que somos criadores também.



Liderança impecável


Ser inspirador é ser impecável. Não impecável no sentido de livre de erros, pois isso nenhum ser humano é, mas no sentido que Don Miguel Ruiz, um médico mexicano, deu ao termo. Em seu best-seller Os quatro compromissos, Don Miguel Ruiz ensina que, para levar uma vida mais harmônica, o ser humano deve selar e honrar estes quatro compromissos:

  • Seja impecável com sua palavra: as palavras têm imenso poder e não devem ser usadas levianamente. Diga apenas aquilo em que acredita, usando corretamente sua energia.

  • Não leve nada para o lado pessoal: não absorva insultos e não se deixe levar por adulações. Aprenda a se tornar imune às opiniões alheias. Lembre-se que, mesmo quando as palavras do outro o ferem e magoam, elas são fruto da visão que essa pessoa tem da realidade, e não da realidade em si.

  • Não tire conclusões: atenha-se apenas à realidade imediata e concreta. Evite a preocupação — que, como o próprio nome diz, é uma pré-ocupação, ou seja, um ocupar-se antes do tempo, com algo que nem aconteceu ainda.

  • Sempre dê o melhor de si: em qualquer circunstância, mesmo nas situações mais insignificantes, faça o melhor.

Benjamin Zander, o famoso regente da filarmônica de Boston, confessou que demorou muitos anos para entender que o papel de sua batuta, da qual não sai som algum, era fazer que aqueles músicos reunidos sob sua liderança dessem o melhor de si. Como líder, seu papel era criar um ambiente favorável. Ou, em uma só palavra, inspirar


“Há infinitas maneiras de tocar ou cantar uma música. O maestro é aquele que revela as possibilidades. A lição é a mesma para líderes corporativos.”
Benjamin Zander


Conclusão


Ligados naquele piloto automático, ao longo da vida parece que vamos nos esquecendo de lições básicas, aprendidas ainda no jardim-de-infância. No entanto, assim como as empresas podem e devem resgatar a sabedoria das tribos, nós como indivíduos também precisamos resgatar a sabedoria dos nossos primeiros anos, recordar as regras mais singelas do convívio humano que aprendemos naquela época.


Não faça aos outros o que você não quer que lhe façam. Não faça acordos que você não quer fazer, e aqueles que fizer mantenha. Caso saiba que não vai conseguir manter um acordo, comunique imediatamente à outra parte. Não alimente falsas expectativas.


É como um princípio básico do zen-budismo: se quiser sentar, sente, se quiser andar, ande, se quiser correr, corra; mas não hesite. Outra lição do zen-budismo é manter a mente aberta, a mente do principiante, que não julga, não resiste, apenas vive o momento presente, observando e absorvendo o que a vida apresenta.


Não podemos vir a ser o que queremos enquanto continuarmos sendo o que somos.


Uma ótima semana para você!

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hackeando a cultura organizacional para um mundo "pós Covid19."