| Tecnologia,
"Desengenharia" e reflexões de um fim de
semana tumultuado...
Venho
há muito tempo pensando e falando sobre a questão
da paixão irremediável que as empresas declararam
à tecnologia.
Uma paixão desmedida, um quase endeusamento mitológico
que, se não parece num primeiro olhar, descabido e
exagerado, é no mínimo engraçado.
É como se de repente as culpas de cada um pudessem
ser expiadas pela tecnologia. Pondo a culpa no tal do sistema
que caiu....
Tudo começou quando li um artigo no último fim
de semana, publicado no Wall Street Journal. O título
era "Bem vindo a era da "Desengenharia".
Como num "flash", imagens começaram a pipocar
na minha cabeça e lembranças de algum tempo
atrás não saíam da minha mente.
Em 1987 eu comecei a trabalhar numa agência de marketing
direto, das grandes.
Lá atendíamos a um cliente também dos
grandes. Um cartão de crédito.
Foi uma escola para mim. Aprendi muito sobre os meandros e
sutilezas da relação com o cliente, as segmentações
que eram possíveis, as personalizações
das malas, o incrível dia em que fizemos uma mala que
bateu a famosa mala controle deles , enfim, um aprendizado
constante e a grande descoberta de que a comunicação
tomaria um rumo irreversível:
O
marketing de relacionamento, marketing integrado, marketing
de nicho, marketing um a um ou ainda database marketing. Muitos
nomes para dizer a mesma coisa.
Mas database marketing era o nome que seduzia e encantava
aqueles que começavam como eu a viver as novidades
de um mundo que aqui no Brasil ainda tinha um longo caminho
a percorrer.
Não precisamos lembrar que o primeiro catálogo
de venda direta americano surgiu no final do século
passado e a Associação de Marketing Direto Americana
vai fazer este ano seu octogésimo primeiro encontro.
Há oitenta e um anos eles se reúnem para debater
o negócio Marketing Direto!
Precisa
falar mais?
Aqui nos trópicos, os anos 80 foram fundamentais para
o crescimento e consolidação daquele primo pobre
da propaganda, o tal do marketing direto e o database como
conseqüência.
Hoje, 15 anos depois do meu início nesse negócio
apaixonante, vejo que a consolidação da disciplina
marketing direto como uma ferramenta fundamental de comunicação
e relacionamento com os clientes é uma realidade. O
mercado já absorveu e entendeu a necessidade de se
conhecer, conquistar e manter clientes.
As agências de propaganda (quem diria?) que sempre trataram
o marketing direto como algo menor, estão envolvidas
numa corrida desenfreada para incorporar em suas estruturas
os poucos bons profissionais disponíveis e mesmo empresas
inteiras de marketing direto.
Por que? Demanda dos clientes alguns dizem. Acho que é
um pouco mais que isso.
Já
começa a existir consciência de que na cabeça
do cliente, propaganda, marketing direto, promoção,
"sampling", "merchandising", uma bela
matéria no jornal ou mesmo um vagão de metrô
com uma embalagem inteira de um produto são a mesma
coisa. Contatos com a marca. Identificação e
identidade. E o papel da tecnologia e do database é
fazer com que esta comunicação toda, de forma
integrada e relevante atinja a pessoa certa, na hora certa
com a oferta certa.
O processo de amadurecimento das empresas de comunicação
e seus clientes, o despertar para a importância do cliente
e a administração destes processos, tudo isso
está perigosamente centrado em tecnologia.
O database por exemplo. De uns tempos para cá não
se fala em outra coisa. A grande solução para
todos os problemas da empresa. A forma mais inteligente e
adequada de se relacionar com o cliente. Mitos e verdades
cercam esta ferramenta.
Problema:
Continuo recebendo de uma administradora de cartão
de crédito malas diretas muito bonitinhas tentando
me vender um cartão que eu já tenho há
10 anos.
Isso quando as empresas não se encantam pela personalização
e além da oferta errada para a pessoa errada, escrevem
o nome errado...
E os sistemas de gestão? Os grandes painéis
de controle da empresa?
Os Call Centers informatizados que privilegiam a produtividade
e não a qualidade do contato?
O artigo do Wall Street Journal afirma que quase a metade
dos projetos de tecnologia dos Estados Unidos são abortados
antes de serem concluídos.
A FoxMeyer Drug Co., empresa de distribuição
de medicamentos do Texas literalmente quebrou quando seu sistema
de US$ 65 milhões deu pane. Executivos da empresa dizem
que a tal pane foi preponderante na decisão de se pedir
uma concordata. A empresa foi comprada por uma concorrente.
A conclusão que se chega desta leitura inesperada é
que existe já mais do que confirmada a busca de um
maior equilíbrio entre o homem e o computador, quase
que implorando por uma "desautomatização"
ou "desengenharia" como genialmente o jornal definiu.
A função da tecnologia é ajudar o homem
a cumprir tarefas. Básicas ou complexas. Nada mais.
Uma ferramenta. Só.
Cada vez mais somos expostos a conceitos como "high tech
e high touch" (alta tecnologia e alto contato); esta
é a idéia. O homem como objetivo final da relação.
Seja um cliente, um membro da equipe, um fornecedor. A tecnologia
permite o elo.
Seres humanos são movidos a reconhecimento e motivação.
Se a tecnologia nos ajudar a compreender melhor a relação
humana e transformar aquilo que soa falso ou robotizado nos
"scripts" de telemarketing e nos próprios
discursos de venda em algo mais amigável, sensível
e eficaz, já estará cumprindo boa parte do seu
papel.
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