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quê eles fazem isso?
Basta abrir qualquer jornal sério (e até os
não muito sérios...) de qualquer cidade do Brasil
para se notar que as reclamações dos leitores,
em seções devotadas ao consumidor ou mesmo na
seção de cartas, vêm aumentando enlouquecidamente.
É um paradoxo.
Fidelização,
lealdade, retenção de clientes. Todos nós
já ouvimos exaustivamente estas palavras. Será
mesmo?
O
que me parece cada vez mais evidente é que o descaso
de uma série de empresas na relação com
seus clientes é uma prática habitual.
Vou
usar um exemplo que aconteceu recentemente comigo.
Uma
grande empresa aérea brasileira, agora atuando num
mercado desregulamentado, exigia que se emitisse o bilhete
com até 3 horas de antecedência para uma tarifa
promocional (metade do preço). Ora, eu que sou cliente
fiel desta empresa (eu disse fiel, o que não é
a mesma coisa que leal), optei por voar por ela no trecho
que eu tinha urgência. Ocorre que eu estava no Rio Centro
em Jacarepaguá, quilômetros e quilômetros
distante de qualquer loja desta empresa e mais ainda do aeroporto
Santos Dumont. Minha viagem era urgente. Ainda assim, fiz
a reserva na esperança de que poderia resolver a questão
da tarifa de outra forma. Afinal, eu tinha que sair dali rápido.
Fui
às pressas para o aeroporto e quase perdendo o vôo,
me dirigi ao balcão do check-in da empresa, tentando
abreviar aquilo que seria um pesadelo certo. "Senhorita,
estou atrasadíssimo para o vôo tal, dentro de
20 minutos. É possível comprar o bilhete aqui
no balcão?" e dito isto, saquei todo orgulhoso
o cartão de crédito que ostenta com galhardia
o logotipo daquela empresa aérea. Resposta: "Senhor,
o senhor (sic) precisa se dirigir à nossa loja e emitir
o bilhete. ".
- ?????
Saí
em disparada para a loja, que adivinhem, estava.... Lotada.
Com um pedido aqui, outro ali, me acerquei do caixa e lhe
contei a estória toda. Não havia tempo de emitir
o bilhete, eu estava longe do aeroporto e de qualquer outra
loja, blá, blá, blá. Diálogo que
se seguiu:
- Senhor, o senhor (de novo?), vai ter que adquirir seu bilhete
com a tarifa cheia.
- Mas veja bem, eu estou aqui pronto para comprar a passagem
(eles odeiam este termo, o negócio é bilhete
mesmo), e você me diz que não pode me dar um
desconto, mesmo considerando que eu liguei para a Central
de Reservas com mais de 3 horas de antecedência?
- Exatamente.
- Mas você sabia (Aha! Eu fiz pesquisa de mercado!!)
que o seu concorrente logo ali embaixo tem um vôo para
o mesmo lugar, meia hora depois e que basta eu RESERVAR por
telefone com mais de três horas que ele me vende o "bilhete"
pela tarifa promocional, ou seja metade do preço??
- Sim, sabia senhor. Infelizmente não há nada
que eu possa fazer senhor. (Aquilo já estava ficando
surreal...)
- Você está me dizendo que sabe que o seu concorrente
pode roubar seus passageiros, e eu diante de você neste
momento, com meu cartão de crédito na mão,
pronto para gastar e você pronto para emitir e nós
não vamos fazer isso acontecer??
- É senhor, eu entendo sua posição mas
não há nada que eu possa fazer. Tarifa cheia.
- (...) Mas...
- Próximo!!
Acho
que depois desta "fábula" (infelizmente verdadeira),
deveríamos fazer algumas reflexões.
A primeira delas, é que a inércia e a rejeição
a mudanças que se abatem sobre as empresas (principalmente
as de cultura mais conservadora) é impressionante e
dominante. Mesmo depois da desregulamentação
deste mercado, onde qualquer estudante do ginásio sabe
que vai haver uma concorrência agressiva, algumas empresas
ainda agem assim com o cliente.
Eu pergunto: A culpa foi do atendente da companhia aérea?
Claro que não.
Treinamento
e "empowerment" são palavras muito pronunciadas
por um monte de gente, mesmo neste tipo de empresa, mas infelizmente
pouco praticadas. Aquela velha diferença entre a intenção
e o gesto...
Aquele atendente tinha tudo na mão para não
perder o passageiro e este artigo nunca ser escrito. Ou talvez
escrito, com a intenção de mostrar que nem tudo
está perdido. É melhor vender a poltrona pela
tarifa promocional do que não vende-la. Este é
um produto perecível. Nunca mais vai ser reposto. Alô
meus amigos da rede hoteleira!
Existe uma relação direta entre a qualidade
do atendimento, seja pessoal ou telefônico e o envolvimento
e motivação do funcionário e das equipes.
Treinamento, por si só, não adianta nada. Programas
de envolvimento dos funcionários, incentivo, premiações
e principalmente RECONHECIMENTO, são ferramentas insuperáveis
para gerar resultados.
Dias
atrás, recebi a notícia que um grande amigo,
que está esperando um transplante de rim, entrou em
contato com uma outra empresa aérea e disse que acumulara
uma enorme quantidade de milhas não voadas e que estas
estariam perdendo a validade em breve. Em função
da impossibilidade do meu amigo resgatar e utilizar suas milhas
pois não pode viajar nem para Osasco, a companhia lhe
enviou uma bonita carta, simpatizando com o seu problema e
assegurando a tranqüilidade deste passageiro (agora acho
que leal). Suas milhas não teriam prazo de validade
e ele poderia utiliza-las quando bem entendesse.
Dá
para notar a diferença?
É para pensar.
Temos
ainda muito que caminhar neste país no que diz respeito
às pessoas e as organizações.
Ah! Ia me esquecendo... Aquele vôo do começo
do artigo, consegui fazer. No concorrente. Comprando o bilhete
no balcão de check-in. Sem loja, sem fila.
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